Do retiro: experiências de carnaval que despertam vocações
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Em todo o Brasil, retiros de carnaval têm sido, para muitos jovens, mais do que uma proposta espiritual temporária: tornaram-se o início de caminhos vocacionais.
Eventos como o Maranathá, realizado pelo grupo Jovens Sarados, e o Renascer, promovido pela Comunidade Católica Shalom, reúnem centenas de jovens que vivenciam uma experiência pessoal com de Deus e passam a discernir um chamado ao sacerdócio, à vida consagrada, missionária ou a diferentes formas de serviço na Igreja.
Muitas dessas histórias começam com um simples convite. Foi assim com Lucília Martins, hoje integrante da Comunidade Servas da Alegria. Durante grande parte da adolescência, Lucília viveu intensamente tudo o que o mundo lhe oferecia. Foi promotora de baladas, frequentava raves e buscava constantemente movimento, barulho e novas emoções.
No entanto, em meio a tantos estímulos, começou a surgir um cansaço e um vazio difíceis de explicar. “Mesmo cercada de pessoas, música e agitação, havia momentos muito atípicos em que Deus falava ao meu coração: ‘Você não pertence a esse lugar’”, conta.

Segundo ela, essa experiência acontecia justamente nos ambientes onde acreditava encontrar plenitude. “Era como se, no silêncio interior, em meio ao barulho externo, Deus me recordasse quem eu era e de onde eu tinha partido.”
O ponto de virada veio com o convite para participar do retiro Maranathá. “Ali algo mudou profundamente. Ao ver jovens servindo com tanta entrega, mas agora direcionada a Deus, meu coração ficou constrangido. Percebi que toda aquela intensidade que eu vivia poderia ser totalmente de Deus”, relata.
Já no segundo dia, surgiu o desejo de também se entregar. “Eu queria dar mais, queria viver aquilo que eles viviam.” Uma palavra marcou definitivamente sua experiência: integridade. “Deus me chamava a uma vida inteira, sem divisões. Não era possível viver metade para Ele e metade para o mundo.”
Após o retiro, iniciou-se um processo gradual de mudança. Deixou ambientes e situações que a afastavam de Deus, inclusive um relacionamento de três anos. “Apesar de amar muito, entendi que precisava estar livre para viver plenamente aquilo que Deus sonhava para mim. E, com dor e confiança, escolhi a vontade d’Ele”, conta.
Seu desejo missionário a levou a Moçambique, onde viveu uma experiência com outros 160 jovens em missão. Ela narra que ali, no meio de tantos jovens, ela pode ser um instrumento para que muitos despertassem para o amor por Deus. “A missão confirmou aquilo que já ardia dentro de mim: eu nasci para me entregar”.
Ao retornar ao Brasil, sentiu que precisava ser inteiramente de Deus. Assim, a vida religiosa começou a se encaixar perfeitamente com tudo aquilo que Deus já havia colocado em seu coração: entrega, integridade e missão.
Hoje, Irmã Lucília, serva de Nossa Senhora da Alegria, segue discernindo sua vocação, desejando se oferecer de maneira livre e integral a missão de anunciar o amor de Deus. “Aquele retiro não foi apenas um evento. Foi o ponto de partida de uma vida nova. Foi ali que Deus transformou intensidade em missão, emoção em vocação e retorno em entrega total”, completa.
A história de João Pedro também começou com um convite de amigos. Por influência de alguns amigos aceitou um convite para participar de um retiro de carnaval. “Eu estava numa idade onde tudo era novo, tudo era desconhecido, então eu buscava novas experiências, então decidi participar desse retiro”, conta.

Hoje seminarista da Diocese de São Miguel Paulista, ele afirma que aquela experiência foi determinante. “Foi uma sensação de muita alegria. Durante as pregações e momentos de convivência, eu sentia algo despertando dentro de mim. Era a voz de Deus falando, ainda de forma muito suave.”
Apesar disso, ele resistiu ao chamado. “Eu tentei fugir, contestar, pensar que aquilo não era para mim.” Porém, depois de quase um ano resistindo, não tinha outro caminho a tomar a não ser a vontade de Deus. “Eu fugi, mas depois tive certeza de que o Senhor me quer onde estou”, conta.
Veio então os encontros vocacionais. Ao longo do ano surgiram dúvidas, mas com a mesma rapidez que elas surgiam, logo eram respondidas, e o caminho vocacional foi sendo construído. “Através deles, pude aprofundar minha amizade com Deus e compreender sua vontade.”
Para João Pedro, a experiência naquele retiro de carnaval foi fundamental.
“O que me marcou nesse retiro foi poder contemplar a voz de Deus, escutar o silêncio de Deus, assim como, a capacidade com que eu fui me abrindo pra voz Dele, para escutar o que Ele tinha a me dizer e enfim acolher a vocação que ele apresentava para mim naquele momento”.
A experiência de Rayane André aconteceu de forma inesperada. Em 2017, ela era responsável por organizar uma caravana para o retiro Renascer, da Comunidade Católica Shalom. Porém, seu intuito era levar alguns jovens.
Embora já tivesse participado de outros retiros, aquele foi diferente. “O que mais me marcou foi a oração de efusão do Espírito Santo. Um missionário rezou por mim e falou coisas que correspondiam àquilo que eu vivia.”

Outro momento decisivo aconteceu ao visitar um estande vocacional. “Eu nunca tinha ouvido falar de vocacional. A pessoa que me acolheu me apresentou a comunidade, as formas de vida, o carisma Shalom, e me disse que eu precisava participar de um vocacional”, conta.
A experiência despertou uma busca profunda. Rayane saiu decidida a descobrir sua vocação. “Esse retiro foi um marco. Passei a buscar qual era o meu lugar na Igreja.” Um ano depois, ingressou no vocacional da Comunidade Shalom. “Tudo aconteceu muito rápido. Algumas pessoas diziam que Deus tinha pressa”. Hoje, após quase dez anos, Rayane é consagrada na Comunidade de Vida Shalom.
Em meio a músicas, pregações e momentos de oração, retiros de carnaval continuam sendo, para muitos jovens, mais do que uma alternativa às festividades tradicionais. Tornam-se espaços de encontro pessoal com Deus e de escuta interior, onde surgem perguntas, decisões e novos caminhos.
Histórias como as de Irmã Lucília, João Pedro e Rayane revelam que, muitas vezes, é a partir de um simples convite que nasce um processo capaz de transformar completamente uma vida. Para eles, o que começou como uma experiência de poucos dias se tornou o primeiro passo de uma vocação vivida diariamente.
Com informações e imagens: Vaticano







