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Duas novas espécies de minhocas são encontradas em sistemas integrados de produção no interior de São Paulo

  • 21 de mai.
  • 4 min de leitura

Duas novas espécies de minhocas foram descobertas na fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP). A revelação foi feita em abril, no artigo “Glossoscolex (Glossoscolex) canchim sp. nov. and Fimoscolex bernardii sp. nov., two new earthworm species (Oligochaeta: Glossoscolecidae) from São Paulo State, Brazil” , publicado na revista internacional Zootaxa.


O artigo é assinado pelos pesquisadores Marie Luise Carolina Bartz, do Programa de Pós-Graduação em Ecossistemas Agrícolas e Naturais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); George Brown, da Embrapa Florestas; e Lilianne Maia Bruz, do programa de Pós-graduação em Solos da Universidade Federal do Paraná (UFPR).


As duas novas espécies da família de minhocas Glossoscolecidae — a Fimoscolex bernardii sp. nov. Bartz e a Glossoscolex (Glossoscolex) canchim sp. nov. Bartz (foto à direita)— pertencem aos gêneros Glossoscolex e Fimoscolex e foram encontradas em sistemas integrados de produção agrícola e pecuária, em lavouras sob plantio direto e pastagens na Fazenda.


Segundo os autores, esses novos táxons (organismos) enriquecem o inventário da fauna de minhocas brasileiras e contribuem para uma melhor compreensão da diversidade e da distribuição de espécies nativas na transição entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado. As minhocas estão entre os membros ecologicamente mais importantes da fauna do solo. Elas atuam como engenheiras do ecossistema e são consideradas bioindicadoras da qualidade ambiental e saúde do solo.


“Espécies nativas geralmente estão associadas a habitats menos perturbados, enquanto formas exóticas ou invasoras tendem a dominar solos manejados. Dessa forma, o registro da diversidade de minhocas em sistemas integrados de produção é essencial para relacionar as respostas biológicas do solo à intensidade do manejo e à sustentabilidade a longo prazo”, explica o pesquisador da Embrapa Florestas George Brown.


Para Bartz, encontrar novas espécies de minhocas em áreas produtivas mostra que é possível conciliar produção agrícola com conservação da vida no solo. “As minhocas são organismos-chave e sua presença indica que esses sistemas estão funcionando biologicamente. Isso reforça que práticas como o plantio direto e os sistemas integrados não apenas produzem alimentos, mas também mantêm a biodiversidade nativa brasileira. Confirma ao produtor que práticas sustentáveis ajudam a manter os processos biológicos que sustentam a fertilidade do solo, trazendo benefícios no longo prazo para a produtividade e a resiliência do sistema”, destaca. “O impacto é muito positivo. Isso muda a forma como vemos a agricultura, ela deixa de ser apenas produtiva e passa a ser também conservacionista”, completa a pesquisadora.


Histórico


Em 2018, os pesquisadores Brown, Bartz, Bruz e equipe estiveram na Embrapa Pecuária Sudeste para avaliar a influência de sistemas integrados sobre a qualidade do solo e as populações de minhocas. De acordo com o pesquisador Alberto Bernardi, homenageado no nome de uma das espécies (veja quadro), o trabalho possibilitou a coleta de informações que subsidiaram projetos de sistemas de integração da Embrapa Pecuária Sudeste.


“Os dados agregaram mais conhecimento sobre a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), a integração lavoura-pecuária (ILP) e a integração pecuária-floresta (IPF). Há ainda muitas respostas que precisam ser dadas. Para isso, procuramos especialistas que atuam em outros temas para ajudar a entender melhor esses sistemas, que são muito complexos”, ressalta Bernardi. Ainda segundo ele, esse esforço multidisciplinar contribui para a geração de informações que auxiliam técnicos e produtores na implantação de modelos integrados e sustentáveis.


Os resultados, que fizeram parte da tese de doutorado da Lilianne Bruz, mostraram que os sistemas integrados contribuíram para o aumento da abundância de minhocas de espécies nativas e exóticas. “Com os trabalhos pudemos constatar que esses sistemas de uso promovem ambientes favoráveis para a conservação dessas espécies. A ocorrência das espécies nativas e exóticas pode ser usada como indicador do estado de conservação. O fato de termos encontrado a presença de minhocas nativas em áreas amplamente perturbadas indica que os sistemas integrados de produção, utilizados nas áreas da Embrapa, têm possibilitado a conservação dessas espécies, que precisam ser monitoradas ao longo do tempo para garantir a viabilidade de suas populações”, diz a pesquisadora.


Fertilidade do solo


As minhocas são utilizadas como bioindicadoras de qualidade e saúde do solo porque são sensíveis a mudanças no manejo e desempenham várias funções, como a abertura de canais no solo, a fragmentação de resíduos vegetais, o transporte de microrganismos e a mistura de matéria orgânica com minerais. Tais funções resultam em melhorias nas propriedades físicas, químicas e biológicas, bem como na fertilidade do solo e a produtividade agrícola.


A coleta das minhocas ocorreu em várias áreas da Fazenda Canchim sob sistema ILPF, ILP, IPF (integração pecuária-floresta), pastagem extensiva, pastagem intensiva e cultura de milho irrigado sob plantio direto. As minhocas foram retiradas manualmente do solo, contadas, separadas e avaliadas quantitativa e qualitativamente para monitorar as alterações no solo decorrentes de diferentes tipos de manejo. Inicialmente, foram examinadas as características externas, seguidas de dissecção dorsal para observação das estruturas anatômicas internas.


Os espécimes estão depositados na Coleção Fritz Müller de Oligoquetas (COFM) da Embrapa Florestas, em Colombo, Paraná, com um parátipo de cada espécie enviado ao Museu de Zoologia de São Paulo (MZUSP), em São Paulo. Parátipo é um exemplar de referência usado por um pesquisador para descrever e dar nome a uma nova espécie.


Um aspecto relevante é que as novas espécies nativas foram encontradas tanto em sistemas integrados quanto em pastagens manejadas intensivamente. A espécie de Fimoscolex foi encontrada também em área de cultura anual sob plantio direto. Conforme Bernardi, a hipótese é que os sistemas conservacionistas, como a integração lavoura-pecuária, lavoura-pecuária-floresta e plantio direto, proporcionam maior aporte de carbono, estimulam a diversidade de organismos e melhoram as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, além de trazer outros benefícios ao ecossistema.


Com informações e imagens: Embrapa


 
 

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